Nasci
no sul do Brasil, uma região que tem como comida típica o
churrasco. Por muitos anos segui essa tradição sem jamais pensar ou
me questionar sobre o assunto.
No
final de 2010, li uma reportagem sobre Paul McCartney que falava
sobre seu vegetarianismo. Dias após, encontro frases de vegetarianos
famosos falando sobre o assunto, incluindo Rita Lee. Na época, eu
era devota do bom churrasco todo o domingo, mas fiquei curiosa e me
perguntei: o que faz com que essas pessoas não comam carne?
Pesquisei sobre o assunto e encontrei vários sites: alguns com
informações de menos, outros radicais demais pra quem ainda comia
carne e outros que me informaram de maneira equilibrada tudo o que eu
precisava fazer. Após ler muito, refleti sobre o assunto. Após
refletir muito sobre o assunto, decidi parar de comer carne. Nem se
eu quisesse continuar comendo eu conseguiria.
Com
a religião não foi muito diferente, mas foi mais cedo. Eu tinha 10
anos quando a minha mãe começou a ir numa igreja evangélica e me
obrigava a ir junto. Eu era uma criança e queria cortar o cabelo,
usar qualquer roupa e ouvir o meu rock n' roll, coisas que a igreja
proibia. Foi ali que eu comecei a me questionar: "por que eu
tenho que deixar o cabelo crescer e usar apenas saia para ir para o
céu? Não basta eu ser uma pessoa boa?" Isso me fez ler muito
sobre religião, desde os mitos da antiguidade, passando por Idade
Média, religiões árabes, hinduísmo, budismo, enfim, tudo o que
foi possível. Foram anos lendo, estudando, pensando em todas as
contradições, ao mesmo tempo que eu lia e estudava sobre ciências
e teorias sobre a formação do Universo e dinossauros e etc. Depois
de um tempo, parei de me importar e me declarei agnóstica. Depois de
muito tempo sem me importar, sem ir a igrejas, sem rezar e perceber
que tudo na vida dava certo, misturando com leituras de Jean Paul
Sartre, me declarei ateia. Isso não foi uma escolha, foi uma
conclusão, foi uma percepção de que não havia nada superior a mim
regendo a minha vida. Tudo que eu precisava para fazer as coisas
acontecerem, estavam em mim.
Minha
intenção não é fazer com que todas as pessoas do mundo sejam
vegetarianas ou deixem de acreditar em deus. Eu apenas gostaria que
todos parassem para pensar sobre o assunto. A maioria come carne e
vai à missa todos os domingos por não repensar os seus hábitos. A
alimentação e a religião fazem parte de uma cultura de séculos e
não é da noite para o dia que se tira hábitos tão intrínsecos
na nossa sociedade. Nem todos que pararem para ler e pensar nos
assuntos, concordarão que não comer carne e não ter religião não
é preciso na nossa vida. Eu lhes digo que não faço uso de nenhum
dos dois e tenho tudo que preciso.
A
intenção é sempre fazer com que as pessoas pensem por elas mesmas.
Fazer o que eu acho certo só porque eu acho certo é o mesmo que
fazer o que Hitler acha certo só porque Hitler acha certo. A
primeira coisa que fez com que eu gostasse de filosofia é justamente
esse questionamento, a certeza que cada um pode pensar por si mesmo e
chegar às suas conclusões. Talvez eu esteja completamente errada,
mas acho que se cada um pensasse por si mesmo, todos chegariam a
mesma conclusão: não é ruim que as pessoas acreditem em um deus, o
que ferra com tudo é o fato de seguirem uma religião idiota; o
problema não é as pessoas comerem carne, mas pensarem que sem carne
não vivem, que tem que ter carne em tudo; o problema não é o povo
votar, mas é não saber votar, é votar naquele que fala o que eles
querem ouvir mesmo sabendo que o cara não vai cumprir.
Quem
pensa, não consegue ouvir as músicas de maior sucesso dos nossos
dias, não consegue assistir novela, nem muitos filmes que passam por
aí.
O
caso é que pensar dói, dá trabalho, trás angustias. Mas é
sentindo essas dores e angustias que eu sou livre.